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Mato Grosso rico, servidores endividados: uma conta que não fecha

Por Henrique Lopes – Professor e pré-candidato a deputado estadual

Mato Grosso é apresentado diariamente como um exemplo de equilíbrio fiscal, crescimento econômico e capacidade de investimento. O governo comemora recordes de arrecadação, inaugura obras e destaca a solidez das contas públicas. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: de que adianta um Estado rico quando seus servidores públicos estão cada vez mais pobres?

A realidade vivida pelos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público, especialmente da educação, está muito distante da propaganda oficial. Enquanto os cofres estaduais registram crescimento na arrecadação, mais de 60 mil servidores ativos e aposentados recorrem aos empréstimos consignados para pagar alimentação, medicamentos, aluguel e outras despesas básicas da família. Nessa preocupante estatística, cerca de 80% dos 42 mil aposentados e pensionistas do Estado — aproximadamente 35 mil pessoas, segundo o MTPrev — estão endividados.

Na educação, a situação é ainda mais preocupante. Professores e profissionais das escolas enfrentam uma combinação perigosa: desvalorização profissional, aumento das responsabilidades e perda de 32,57% do poder de compra. O que antes garantia uma vida digna hoje mal consegue acompanhar o aumento dos preços dos alimentos, da energia elétrica, dos combustíveis e dos serviços essenciais.

Segundo o autor, a gestão Mauro Mendes e Otaviano Pivetta mantém os salários dos educadores R$ 1.260,49 abaixo do piso salarial nacional, atualmente fixado em R$ 5.130,63, além de ter reduzido a realização de concursos públicos, contribuindo para a precarização da carreira. Apesar de Mato Grosso viver um dos períodos de maior arrecadação de sua história, conforme dados divulgados pelo próprio governo, cresce a indignação dos educadores. Se o Estado arrecada mais, por que os trabalhadores não sentem essa melhora no bolso? Se as contas públicas estão equilibradas, por que tantos servidores estão mergulhados em dívidas?

A verdade é que se construiu um modelo de gestão que privilegia os indicadores fiscais, mas que tem dificuldade em reconhecer o papel estratégico do servidor público. Não existe educação de qualidade sem valorização dos educadores. Não existe saúde eficiente sem profissionais respeitados. Não existe serviço público forte quando seus trabalhadores perdem, ano após ano, a capacidade de sustentar suas famílias com dignidade.

Os servidores do Executivo estadual acumulam perdas salariais de 18,38% em razão do não cumprimento integral da Revisão Geral Anual (RGA) ao longo dos últimos sete anos. Quando o salário deixa de acompanhar o custo real de vida, ocorre um empobrecimento silencioso. O trabalhador continua recebendo, mas compra menos, impacta menos a economia regional, enfrenta mais dificuldades e depende cada vez mais do crédito para sobreviver.

Essa não é apenas uma discussão econômica. É uma discussão sobre prioridades. O governo escolhe diariamente onde investir recursos, concede R$ 14 bilhões em renúncias fiscais e realiza investimentos de grande porte em infraestrutura, como a construção de um parque bilionário. Enquanto isso, os servidores são tratados como uma despesa secundária dentro do orçamento. Quando tudo é reduzido a planilhas e indicadores, perde-se a dimensão humana da administração pública.

Como professor, conheço a realidade das escolas. Conheço profissionais que acumulam jornadas exaustivas, enfrentam dificuldades financeiras e continuam acreditando na educação como instrumento de transformação social. Na educação, onde as mulheres representam 86% da categoria, estão aquelas que ajudam a construir o futuro de Mato Grosso e que merecem muito mais do que discursos de reconhecimento e benevolência de um governo que, na visão de muitos trabalhadores, tem demonstrado pouca sensibilidade às suas demandas.

Defendo que o Estado estabeleça uma política permanente de recuperação do poder de compra dos servidores, dialogue com as categorias e enfrente o problema do superendividamento com responsabilidade. Não podemos aceitar que o crescimento econômico beneficie apenas indicadores e estatísticas, enquanto os trabalhadores que constroem esse desenvolvimento ficam para trás.

Um Estado verdadeiramente forte não é apenas aquele que apresenta bons números em seus balanços fiscais. É aquele que valoriza as pessoas que fazem os serviços públicos acontecerem todos os dias.