Por Luiz Carlo Benitt
Jornalista político
O futebol insiste em afirmar que é apenas um esporte. A história, porém, demonstra exatamente o contrário. Em determinados momentos, a Copa do Mundo deixa de ser apenas um campeonato entre seleções e passa a refletir a própria ordem mundial. A edição de 2026 talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação.
Pela primeira vez, o Mundial foi realizado em três países — Estados Unidos, México e Canadá — e inaugurou um novo formato, com 48 seleções e 104 partidas. Oficialmente, a FIFA apresentou a mudança como um avanço em favor da inclusão, da democratização e da expansão do futebol. Na prática, porém, consolidou o esporte como um dos negócios mais lucrativos do planeta.
Os números impressionam. A FIFA encerrou o torneio com receitas próximas de US$ 9 bilhões e distribuiu a maior premiação da história da competição. Estádios lotados, audiências bilionárias e patrocinadores satisfeitos confirmaram o sucesso financeiro da entidade presidida por Gianni Infantino.
Mas nem tudo pode ser medido em cifras.
Enquanto o planeta acompanhava os dribles, os gols e a disputa pelo título, duas guerras continuavam produzindo destruição e mortes: o conflito entre Rússia e Ucrânia e a guerra na Faixa de Gaza. O contraste foi inevitável. De um lado, um espetáculo bilionário celebrado como símbolo da união entre os povos. Do outro, um mundo cada vez mais dividido, militarizado e incapaz de construir consensos.
Nesse cenário, Donald Trump transformou a Copa em uma extensão de sua política externa. O presidente dos Estados Unidos compreendeu rapidamente o peso simbólico do evento e tratou de associar sua imagem ao torneio. Declarações sobre imigração, segurança de fronteiras, soberania nacional e interesses americanos fizeram da competição um palco permanente de manifestações políticas.
A velha tese da neutralidade esportiva voltou, mais uma vez, a ser desmentida pelos fatos.
A FIFA, por sua vez, preferiu preservar seus contratos comerciais a enfrentar os constrangimentos políticos. Repetiu uma estratégia já adotada em outras edições do Mundial: apresentar o futebol como um território neutro enquanto negociava diretamente com governos, corporações e chefes de Estado.
Não há ingenuidade nessa postura.
Há estratégia.
O novo formato da Copa também merece reflexão. É inegável que a ampliação do número de participantes abriu espaço para países historicamente excluídos do maior evento do futebol mundial. Houve mais diversidade, novas histórias e maior representatividade continental.
Ao mesmo tempo, a expansão revelou o outro lado da moeda: um calendário mais extenso, mais partidas, maior desgaste físico para os atletas e uma competição moldada, sobretudo, para ampliar receitas provenientes da televisão, da publicidade e dos direitos comerciais.
A lógica econômica prevaleceu sobre a lógica esportiva.
Dentro das quatro linhas, entretanto, o futebol ainda preserva sua capacidade de surpreender. A Espanha conquistou seu segundo título mundial ao derrotar a Argentina na final, consolidando uma geração talentosa, organizada e fiel a um projeto esportivo de longo prazo. França e Inglaterra completaram o pódio, reafirmando a força das tradicionais escolas do futebol europeu.
Curiosamente, justamente quando a FIFA busca ampliar mercados e tornar o Mundial cada vez mais global, são as potências históricas que continuam levantando a taça.
Talvez essa seja a principal contradição da Copa de 2026.
A competição ficou maior, mais rica e mais globalizada. Mas também se tornou mais dependente dos interesses econômicos, da geopolítica e das disputas pelo poder internacional.
O futebol continua emocionando bilhões de pessoas. Mas já não consegue esconder que também se transformou em instrumento de influência diplomática, propaganda política e afirmação econômica.
A Copa do Mundo deixou de ser apenas da FIFA.
E talvez essa seja a maior derrota do futebol.



