TRÂNSITO
Alavancado por mistura de álcool e direção, estradas saturadas pelo agronegócio e trechos urbanos violentos, estado soma mais de mil vidas perdidas em um ano e acende alerta máximo nas autoridades.
CUIABÁ — O trânsito em Mato Grosso vive o seu momento mais crítico da última década. Dados oficiais consolidados do Mapa da Segurança Pública, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, revelam que o estado atingiu o recorde de 1.045 mortes no trânsito ininterruptas em um único ano. Com o avanço das fatalidades, Mato Grosso consolidou a segunda maior taxa de mortalidade viária do Brasil, registrando 26,84 vítimas para cada 100 mil habitantes — ficando atrás apenas do Tocantins.
O cenário de violência asfáltica reflete uma escalada contínua. Segundo o Anuário da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), as mortes no trânsito deram um salto de quase 50% em apenas quatro anos (saltando de 698 óbitos para o patamar atual). O acumulado de uma década assusta ainda mais: quase 8.000 pessoas perderam a vida em território mato-grossense no período, desenhando uma crise humanitária de segurança pública que mobiliza especialistas e órgãos de controle.
O Gargalo Logístico: O Perigo nas BRs 163 e 364
Diferente de estados litorâneos ou puramente urbanos, Mato Grosso possui uma dinâmica de tráfego altamente complexa e perigosa. O estado é cortado por dois dos principais corredores logísticos do país: a BR-163 e a BR-364. Juntas, essas rodovias federais são as principais artérias para o escoamento de safras bilionárias de grãos e circulação de produtos industriais.
O compartilhamento diário das pistas entre caminhões bitrens carregados e veículos de passeio cria um ambiente de altíssima pressão. A imprudência em ultrapassagens forçadas, o excesso de velocidade e o cansaço dos motoristas transformam essas rotas em cenários frequentes de colisões frontais gravíssimas. Usuários e especialistas cobram celeridade nas obras de duplicação e manutenção nos trechos mais críticos para tentar frear a letalidade das rodovias federais.
Rondonópolis e o “Placar da Morte” no Interior
A distribuição geográfica das fatalidades aponta que quase 40% da mortalidade do estado está concentrada em apenas cinco municípios polo. Entre eles, Rondonópolis destaca-se de forma alarmante, ocupando as primeiras posições do ranking de acidentes ao lado da capital Cuiabá, de Várzea Grande e de Sinop.
Como um dos maiores entroncamentos rodoferroviários da América Latina, onde as próprias BR-163 e BR-364 se cruzam, Rondonópolis sofre com o impacto duplo: o tráfego pesado de carretas de longo curso e o fluxo intenso de motocicletas e veículos locais dentro de seu perímetro urbano. A combinação resulta em uma média severa de atendimentos de urgência que pressiona continuamente o sistema de saúde do município. No total do estado, a tendência de alta segue implacável, registrando uma média de 3 mortes por dia no trânsito.
Álcool ao volante e o perfil das vítimas
O principal fator humano por trás dessa tragédia coletiva foi detalhado em um relatório do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). Mato Grosso ocupa a indigesta terceira posição nacional em taxa de mortes associadas ao consumo de bebidas alcoólicas e direção, registrando 426 óbitos diretamente ligados à embriaguez ao volante.
O impacto hospitalar dessa imprudência também é severo: o estado computou 2.037 internações decorrentes da combinação de álcool e trânsito, gerando um indicador de 52,3 hospitalizações por 100 mil habitantes.
As estatísticas desenham uma linha clara sobre quem são os maiores afetados:
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- Gênero: Os homens são as principais vítimas da violência viária, representando 86,1% das mortes e 77,2% dos internados
decorrentes de acidentes com álcool.
- Idade: A faixa etária produtiva, entre 30 e 64 anos, concentra a maioria absoluta dos óbitos (576 registros), seguida pelos jovens de 18 a 29 anos (259 mortes).
- Dias críticos: Os fins de semana concentram o maior perigo. A maior parte das mortes ocorre concentrada entre os domingos e as segundas-feiras.
- Gênero: Os homens são as principais vítimas da violência viária, representando 86,1% das mortes e 77,2% dos internados
O Peso das Motocicletas
O crescimento acelerado das frotas urbanas e o uso massivo de veículos de duas rodas nas cidades do interior impulsionam a gravidade dos acidentes. Os motociclistas já respondem por 40% do total de vidas perdidas no trânsito do estado. A falta de proteção adequada e a vulnerabilidade nas colisões com veículos maiores fazem com que os acidentes urbanos com motos deixem sequelas graves e permanentes em centenas de jovens trabalhadores mato-grossenses todos os meses.
Para as autoridades de segurança, o freio nesta curva de mortes exigirá mais do que obras asfálticas: demanda a intensificação de operações da Lei Seca, o aumento de blitzes de bafômetro no interior e punições severas para conter a imprudência que continua dizimando famílias em Mato Grosso.
Redação



